O que estou estudando

Profa. Dra. Carolina Ortigosa Cunha

Volume IV Número XIII - Publicação realizada em 19/10/2021

Foi em 2007 que me formei cirurgiã-dentista pela Faculdade de Odontologia de Bauru – Universidade de São Paulo, mas não digo que foi quando tudo começou. Meus sonhos eram antigos, nem sei bem ao certo o porquê, mas, desde pequena, eu dizia que queria ser “dentista, professora e pesquisadora” ou “quero fazer mestrado e doutorado”, sempre desejos incentivados pelos meus pais, pois era nova para entender ao certo o que era isso. Eu sempre gostei de estudar, achava (e ainda acho) mágico o processo ensino-aprendizagem e o quanto aprendemos sobre o ser humano e suas interações com o mundo através de pesquisas científicas.

Vou avançar no tempo e pular para o momento em que decidi me especializar e estudar a área que sou apaixonada, Disfunção Temporomandibular (DTM) e Dor Orofacial, sendo orientada por um dos maiores nomes em Dor Orofacial do mundo, o Prof. Paulo Conti. Obtive o título de Mestre e Doutora que sempre sonhei e me tornei professora do curso de Odontologia do Centro Universitário Sagrado Coração, na cidade de Bauru. Antes disso, tive uma das melhores oportunidades da minha vida, que foi fazer o doutorado sanduíche nos EUA, em New Jersey, na Rutgers University, onde realizei a pesquisa que se tornou minha tese de doutorado. Foi lá que começou a ideia do que vou expor aqui adiante no “O que estou estudando”.

Cheguei em New Jersey para ser orientada pelo Dr. Eli Eliav, uma pessoa extremamente inteligente e paciente para ensinar algo que eu nunca havia estudado: dor em animais e a contribuição do exercício físico aeróbico na diminuição da mesma. Junto com Dr. Eliav e Dr. Junad Khan, pesquisei o envolvimento do sistema opióide em um fenômeno biológico bem documentado na literatura chamado Hipoalgesia-induzida por Exercício (HIE), cujo mecanismo não era (e ainda não está) claro na literatura. Meu estudo objetivou avaliar o papel de antagonistas específicos e não-específicos de receptores opióides nos níveis de HIE em ratos saudáveis. Descobrimos que alguns ratos apresentavam um alto nível de HIE, enquanto outros não apresentavam nenhum nível de HIE. Concluímos que os ratos com alto nível de HIE tiveram uma redução significativa do HIE após a injeção de antagonistas opióides, mas o efeito foi parcial, sugerindo que outros mecanismos, além do sistema opioide, estariam envolvidos na HIE em animais. A conclusão final da minha tese dizia “Mais estudos são necessários para avaliar o fenômeno e os mecanismos da HIE em seres humanos com desordens dolorosas como dor crônica musculoesquelética e dor orofacial” e essa conclusão perdurou em minha mente até o ano de 2020.

Resolvi então, em 2020, fazer Pós – Doutorado, sob supervisão do meu eterno mestre Prof. Paulo Conti. Um desafio, já que iria continuar com meu trabalho de professora na faculdade e nos cursos de pós-graduação. Mas conseguiria estudar o que a conclusão da minha tese pedia e, assim, surgiu meu projeto de pesquisa, com o objetivo geral de avaliar a variação no perfil de modulação de dor em indivíduos saudáveis e com Dor Miofascial Mastigatória Crônica após um programa controlado e individualizado de exercício físico aeróbico em curto e médio prazos.

Apesar do número considerável de estudos com consequentes melhorias na criação de modelos animais mais confiáveis, no entendimento da fisiopatologia da dor e na avaliação de novos medicamentos, a dor continua sendo um grande problema social e de saúde pública. E seu tratamento e controle, especialmente quando crônica, ainda é um desafio para o especialista em DTM e Dor Orofacial. O nível de modulação de dor endógena varia de indivíduo para indivíduo. A partir dessa situação, é possível criar perfis de modulação de dor em um grupo de pessoas, de acordo com a atuação do sistema endógeno de facilitação e inibição de dor do indivíduo. Yarnitsky, grande pesquisador na área de modulação de dor,  sugeriu recentemente, em 2015, que a combinação dos resultados de dois testes psicofísicos (somação temporal, realizado para avaliar o sistema de facilitação da dor e modulação condicionada da dor, realizado para avaliar o sistema inibitório da dor) sintetizaria as características de facilitação e inibição da dor de um indivíduo, determinando seu perfil de modulação da dor. E esse perfil seria preditor da resposta do indivíduo a situações que geram dor, assim como da eficácia do tratamento proposto, uma vez que esses indivíduos podem apresentar perfil bom ou ruim de modulação de dor (dentre outras combinações possíveis), inibindo o desenvolvimento da dor ou facilitando-a.

É muito comum “prescrevermos” a prática de exercício físico para nossos pacientes com dor crônica, prometendo uma melhora no quadro de dor. Mas, assim como os ratos da minha pesquisa de doutorado, os seres humanos apresentam variações individuais no nível de HIE e, consequentemente, do perfil de modulação de dor ativada durante e após o exercício físico.

Não existem dados suficientes para concluir como cada tipo de exercício físico poderia ajudar no tratamento do paciente com DTM crônica ou quais os tipos de exercício que seriam mais eficazes. Além disso, é necessário entender porque alguns indivíduos respondem bem ao exercício físico como parte da terapia de controle da dor e outros indivíduos não. Será que, em alguns indivíduos, o exercício físico aeróbico ativa a modulação de dor mais do que em outros? Se esses indivíduos apresentassem dor miofascial mastigatória crônica, o exercício físico iria ativar o sistema modulatório de dor da mesma maneira? Como e por quanto tempo prescrever exercício físico como tratamento? Será que, ao final de um programa individualizado de exercício físico aeróbico, os pacientes com dor crônica miofascial teriam perfil de modulação de dor semelhante a indivíduos saudáveis? O desafio do atual projeto é conseguir individualizar o programa de exercício físico, fato extremamente importante, e que será feito com o auxílio de frequencímetros de pulso, medidas de frequência cardíaca e VO2 e avaliações mensais por um educador físico.

O projeto recebeu auxílio à pesquisa da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e já foi iniciado. Esperamos resultados interessantes para compartilhar no meio científico e com os especialistas em DTM e Dor orofacial, que estão sempre em busca de oferecer a melhor abordagem terapêutica para seus pacientes, principalmente para aqueles que se encontram em condições de dor crônica
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Profa. Dra. Carolina Ortigosa Cunha

  • Especialista em Prótese Dentária
  • Especialista em Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial 
  • Mestre em Ciências Odontológicas Aplicadas (Área de concentração: Reabilitação Oral)
  • Doutora em Ciências Odontológicas Aplicadas (Área de concentração: Reabilitação Oral) com período sanduíche na Rutgers University, NJ, EUA.
  • Diplomada, American Academy of Orofacial Pain
  • Professora de Prótese do Centro Universitário Sagrado Coração (UNISAGRADO - USC)
  • Professora colaboradora dos cursos de Atualização e Especialização do “Bauru Orofacial Pain Group” do Prof. Paulo Conti, no Instituto de Ensino Odontológico de Bauru.